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Olfa Lamloum escreveu um livro que se tornava cada vez mais necessário nos países ocidentais. Como a maior parte da informação que nos chega sobre o mundo árabe e o Islão, caracterizada pela extrema simplificação e uma distorção que não parece ter limites, a visão que os meios ocidentais nos dão do canal de televisão do Qatar Al-Jazeera está marcada pela manipulação. Al-Jazeera: espelho rebelde e ambíguo do mundo árabe dá-nos as chaves para entender o papel que desempenha este meio no campo jornalístico internacional, o complexo e contraditório jogo de interesses que a tornaram possível, assim como a conjunção extraordinária de circunstâncias que permitiram desenVoltar atrás um meio com uma marca liberal e pluralista e uma cultura jornalística moderna e constituída por valores democráticos.
Toda a região do Médio e Próximo Oriente, os países árabes em geral e ao Islão em particular, são representados no imaginário colectivo do Ocidente como a personificação da ameaça. Uma ameaça que tem adoptado inúmeras formas em diferentes momentos e conjunturas históricas críticas. É uma história demasiado longa, enraizada não só na colonização e posterior descolonização, mas também em etapas anteriores, na adaptação das relações entre ambos os mundos, entre culturas e religiões que, apesar de tudo, durante séculos conviveram de forma mais civilizada. Nos últimos 30 anos, num período de crises intensas e que tantas coisas transformou, há muitos exemplos desta construção do imaginário. De representações simbólicas do Islão que condicionaram decisivamente a percepção que a maioria dos ocidentais tem desse mundo tão próximo.
Por exemplo, a representação do árabe como o negociante de petróleo que ameaçava quebrar o nosso sistema de vida foi muito eficiente, apesar do grotesco, para desviar as responsabilidades da crise económica dos anos 1970 para a OPEP ou os países produtores. Não sabemos, no entanto, que efeito teve essa representação do outro, do árabe, do muçulmano, como ameaça directa da nossa forma de vida no aumento do racismo, no desenvolvimento de valores xenófobos nos povos ocidentais. Este é um exemplo que se projecta nos conflitos e intervenções que o Ocidente, e em especial os Estados Unidos, tiveram na região. Na esmagadora maioria dos casos, estes conflitos, guerras, rebeliões ou acções de cidadãos foram tratados jornalisticamente pelas grandes agências e meios ocidentais através do exercício de um monopólio virtual que lhes permitiu de facto definir os acontecimentos a partir da pura visão do establishment norte-americano: a crise do Irão, por exemplo incluía-se num chamado "arco de crise" que ameaçava a liberdade do Ocidente, o nosso precioso modo de vida (leia-se a hegemonia norte-americana).
Esta representação jornalística não era praticamente contestada nem no mundo árabe nem no Ocidente, com a digna excepção de alguns meios de referência e sobretudo de alguns jornalistas. O tratamento jornalístico dos povos, sociedades e culturas, assim como das suas contradições e conflitos, através de uma visão puramente projectiva que substitui toda a complexidade por uma pura imagem linear, sem matizes, marcou até hoje a informação que nos proporciona o sistema de meios ocidentais sobre os países árabes e o Islão. As imagens do açambarcador de petróleo, do terrorista, do fundamentalista religioso ou do imigrante invasor dão forma a uma continuidade coerente que caracterizou a maior parte da informação que temos sobre a região. Uma situação que Edward W. Said descreve com grande lucidez [1]: "É como se no "Islão" retratado pelos escritores, repórteres, políticos e "peritos" não se pudessem estabelecer diferenças entre a paixão religiosa, a luta por uma causa justa, a mera debilidade humana, a luta política e a história dos homens, das mulheres e das sociedades vista como a história dos homens, das mulheres e das sociedades. Esta parece ser assim a versão do "Islão" que se aplica ao Irão e outras zonas do mundo islâmico.
O "Islão" parece englobar todos os aspectos do variado mundo muçulmano, reduzindo-o completamente a uma espécie de essência malévola e irreflectida. Em vez de análise e compreensão, em geral a única coisa que encontramos é uma crua versão dos "actos contra nós."
Neste contexto político, geoestratégico e cultural, o aparecimento de uma voz jornalística que olha a história recente, os acontecimentos e as condições de vida dos homens e mulheres e a mudança que se produz nas suas sociedades com modelos pluralistas e democráticas, sem os atavismos e preconceitos históricos e culturais com que os meios ocidentais e a maioria dos meios árabes se ocuparam de facto, tem funcionado como uma alavanca.
Talvez seja cedo para pesar o impacto político e cultural da Al-Jazeera, a sua contribuição para um auto-reconhecimento das sociedades árabes, o desenvolvimento de uma cultura política democrática construída a partir da sua tradição e história, mas o que sabemos com certeza é que modificou aspectos significativos do campo comunicativo internacional. Em primeiro lugar, quebrou de facto o monopólio de informação que exerciam as grandes agências internacionais sobre uma região vital para os interesses ocidentais, e norte-americanos em particular. Agora os meios ocidentais não só vêm que as suas informações podem ser contrastadas com as que apresenta a Al-Jazeera, mas as suas interpretações globais, que outorgam um certo sentido a cada uma das notícias e informações que apresentam, são desafiadas diariamente pelo canal árabe. Em segundo lugar, os jornalistas ocidentais viram o seu trabalho tornar-se mais complexo, precisamente porque existem pontos de vista diferentes, porque se manifesta uma voz onde só havia silêncio, porque os interesses se contrapõem, porque as definições que reduzem a complexidade das sociedades árabes a una figura linear e estereotipada - útil nos termos da indústria jornalística e especialmente útil para a geoestratégia ocidental - têm que competir agora com uma visão jornalística que tem grande credibilidade entre os povos árabes.
O êxito da Al-Jazeera não é alheio a uma recuperação do tema da informação como fonte de poder, e como um dos eixos que marcam as relações Norte/Sul. Também começa a acalentar outros projectos de características similares na América Latina e, talvez no futuro, noutras regiões do mundo. O aparecimento da Al-Jazeera no campo jornalístico internacional tem que ser visto como um factor de reequilibro das relações marcadas historicamente por uma grande assimetria, e que tiveram um papel tão fundamental na manutenção da hegemonia norte-americana na segunda metade do século XX. O trabalho de Lamloum não só ajuda a compreender a génese e a natureza de um meio de comunicação internacional tão controverso como a Al-Jazeera, mas situa-nos também no centro de um debate que marcará boa parte do século XXI: como transformar um sistema de meios que silencia e deforma a existência de grande parte da humanidade, que impele ao esquecimento selectivo das experiências históricas mais recentes e que, maioritariamente, não constitui um factor de compreensão, mas exactamente o oposto.
[1] Ver Cubriendo el Islam: Cómo los medios de comunicación e los expertos determinan nuestra visión del resto el mundo, Edward W. Said, Arena Abierta, Barcelona, 2006. |